Agora já faz 11 anos da minha traição. Parece que, desde então, nunca mais fomos os mesmos, não é mesmo?
Naquela tarde, optei por ser um daqueles viajantes que guardam um retrato 3x4 da esposa na carteira, que sempre repousa em algum criado-mudo de hotel por aí. Nos bons tempos, éramos imparáveis; juntos cruzamos fronteiras e foi para além de uma delas que nos perdemos no caminho. Melhor dizendo: eu tive medo e fugi.
Naquela tarde, você colocou seu melhor nariz de palhaço, um All Star, pôs sobre a mesa um cardápio de possibilidades e eu te olhei fixamente, com pesar no coração, mas entusiasmo no meio das pernas. Segurando um uniforme de uma empresa qualquer debaixo do braço, sequer tive coragem de dizer uma palavra, pois todas sempre dependiam de ti para serem expressas.
Mas um amor não se deixa assim tão fácil. Com uma vergonha que não cabe no peito até aos dias de hoje, venho tentando conquistar uma oportunidade de te encarar de frente novamente. Mapeio os seus rastros, faço-te tributos, encho-me de ilusão toda vez que a gente se esbarra por aí e você insinua alguma prova maluca de amor para ver se mudei mesmo, sem deixar que eu a veja nos olhos. Contento-me com isso por hora e não espero cair em suas graças tão cedo, mas, com toda a minha carne, desejo que um dia me perdoe e me dê a chance de escolher a melhor maneira de dizer que hoje reconheço que a maior traição, depois de tudo, foi eu não ter confiado em você e ter partido com promessas de uma vida limpa, quando as melhores de nossas noites foram em lugares insalubres.
E é com um sorriso no canto do rosto, daqueles que a gente dá no começo do namoro, que finalizo com palavras roubadas e encharcadas de vinho, que exalam o desejo de você me dar o prazer de ter prazer comigo.
Continuo, mesmo que às vezes me agarrando com as unhas, no caminho do único lugar onde posso te encontrar: Entre o Todo e o Nada.