Há pouco mais de 10 anos, conheci uma menina chilena no Brasil. Ela me fez um convite daqueles "por educação", que a pessoa não espera que você aceite naquele momento. Pois bem, eu, com meu imaginário pulsando por conta de um livro que li nessa época (que descrevia várias situações que o autor viveu em Santiago ), fui além do bom senso e, um dia, aceitei e fui.
Tudo estava meio que no campo do flerte com essa menina. Ela era da rua, da mesma espécie que eu; a conheci em São Paulo. Ela jogava malabares, era ruiva e selvagem. Um dia, ela apareceu na praça e eu me impressionei com a aparência dela. Ela logo percebeu meu olhar de admiração e, a partir daí, os olhares sempre se cruzavam, mas nunca passou disso. Nos aproximamos, enfim, conversando sobre cigarros de enrolar. Ela me mostrou uma técnica que chamava de "barquito", onde dobrava cada ponta da seda de modo que parecesse um barquinho(El barquito)", e ficava mais fácil manejar o tabaco para ele não cair.
Nos aproximamos e ela sempre me contava da relação amorosa conturbada que tinha com um conterrâneo dela. De tanto ela contar da vida dela, vi que era uma apaixonada pela arte como eu, e ambos entendíamos isso como paixão pela vida em suas mais variadas formas. Nossa relação superou aquela borda do flerte (embora eu estivesse disposto a "mandar ver" com ela na hora que ela quisesse, se ela um dia quisesse).
Apoiado nessa relação de amizade, na fé que o espírito jovem tem de abrir caminhos mesmo que acabe em merda, com 800 reais, sem celular e com um PSP, alguns meses depois de nos conhecermos, eu estava batendo na porta dela lá no Chile.
Rapidamente, pude perceber que ela estava tão preparada para me receber quanto eu estava para viajar. Cheguei em uma casa onde vivia sua irmã com seus três filhos, onde, no mesmo quintal, havia outras casas, sendo que uma delas era da mãe dela. Esperei na cozinha por uns minutos; ela foi para o quarto falar com a irmã, uma mulher mais velha, bonita, bem diferente fisicamente dela. Enquanto uma era um exemplar selvagem de mulher, com cabelos de fogo e pele de neve que também ficava vermelha a cada erupção que seu gênio expelia, a outra era morena, com cabelos lisos e longos, seios maravilhosos em qualquer escala concebida de seios; uma mulher conhecida por ser prática em suas decisões e materialista ao extremo, sempre acusada de ser workaholic.Imagem que mais tarde se dissolveria revelando outros aspectos dela.
Depois de alguns minutos de convencimento e explicações por parte da irmã mais nova, foi decidido que eu ficaria no quarto do irmão mais velho dela, que eu viria a conhecer posteriormente. Minha amiga, nessa época, estava trabalhando à tarde e não poderia me dar muita atenção. Foi aí que comecei a conversar mais com a irmã mais velha. Ela me levou para passear por aí como um belo exemplar estrangeiro tropical, orgulhosa por me mostrar cada ponto turístico que a cidade poderia ter.
Isso foi capaz de derrubar as barreiras claras que existiam entre nós. Eu era uma espécie que parecia ter saído de um livro de fantasia: usava coletes sociais,camisas e calças adquiridas nos brechos da Santa Cecilia, cabelos longos com dreads, lenços e pulseiras por toda parte; enquanto ela tinha aquela aparência simples, ressaltando apenas as suas formas do corpo que era o suficiente pra cubrir o espaço com uma certa aurea de mulher.
Mais uma semana passou e chegou a vez de minha amiga trabalhar de madrugada. Com isso, a irmã dela e eu passamos a conversar na mesa da cozinha até relativamente tarde. Na terceira noite, compramos umas brejas, fomos para o quarto do tal irmão dela (que até então eu nunca tinha visto, até pensei que não existia). Ela colocou um filme indiano engraçado; eu já sabia onde aquilo ia dar e resolvi seguir todo o roteiro. Foi uma madrugada daquelas em que o desejo corre quase solto, pois a via dos gemidos estava bloqueada, já que seus filhos dormiam no quarto da frente.
Ficamos nessa o restante da semana toda, até ela começar a pressionar para assumirmos tudo. E foi assim que eu me vi em um relacionamento com uma pessoa totalmente diferente de mim. Nessa altura, eu já estava entregue à sorte. Tudo parecia indicar que eu estava tão longe de mim mesmo, embora eu ainda, lá no fundo, sentisse que tudo isso estava me conduzindo para onde eu deveria estar.
A questão é que, em algum momento, tudo ficou conveniente. Eu estava sendo bem recebido no quesito hospitalidade, mandava ver toda noite e, nas horas em que não estava com ela, estava com minha agora não só amiga, como cunhada, desbravando os lugares não convencionais e não tão turísticos de Santiago. Era como o melhor dos mundos para um viajante,era como as coisas que via nos livros.E mesmo que entre conflitos constantes com a sogra,que mais tarde se tornou minha amiga em noites frias vendo tormentas de pasiones na tv e festas em funerais,me diverti muito,e posso até dizer que brincando assim, essa terra convulsiva e eu,nos apaixonamos,ja que mais tarde por outras circunstancias da vida voltaria pra entrelaçamos nossas histórias mais um pouco.
Tudo ficou mais lúdico quando, enfim, em um dia, um cara alto, com cabelos desgrenhados, botas,sem um dente da frente e usando um blazer marrom, declarando-se fã de Alice Cooper não só nas palavras, mas em toda a sua estética, apareceu. Foi aqui que entendi por que ele nunca estava em casa, mesmo sendo uma figura tão presente nos relatos que eu achava exagerados até conhecê-lo. Sua dinâmica de vida era: uma semana ele ficava em casa; em um dia aleatório dessa semana, ele começava a beber e só parava duas semanas e meia depois, repetindo esse ciclo sempre.
Quando ele estava sóbrio, era aclamado como o melhor dos tios, pois cuidava muito bem de seus sobrinhos, sendo aquela figura mítica do "tio dono de casa", roqueiro que ajuda em tudo. Quando começava a beber, era necessário pisar em ovos para ter uma boa convivência com ele. A pressão interna da casa por conta disso chegava a um nível que ele mesmo não suportava e saía para beber, voltando dias depois. A casa funcionava como uma espécie de clínica de recuperação.
Esse cara foi uma das pessoas mais legais que conheci na vida e um exemplo para mim de como alguém pode ir ao fundo do poço por um amor não correspondido, pois sua história, assim como a de muitos, tinha uma xoxota no meio.
Um dos dias marcantes com esse cara foi quando ele me levou para tomar umas com os amigos dele. Fomos em uma praça típica. Tudo parecia levar para mais uma tarde normal quando sentou ao meu lado uma mulher que passeava com um cachorro(um daqueles cachorrinhos de colo). Ela era bem mais velha que eu e começou a puxar papo. Vi que ela estava empolgada com a conversa e curiosa com as coisas do Brasil. Confesso que sou daqueles que fala com todo mundo com palavras sinuosas, como se o flerte fosse inerente à forma como eu falo, mesmo que eu não esteja, a priori, interessado em ter nada com a pessoa.(Embora nessa época eu não falava quase nada de espanhol,era tudo na base do portunhol robótico mesmo)
Depois de um tempo de conversa, percebi que uns copos de vinho já rolavam na mesa há muito tempo, assim como mais de uma caixa passava entre as mãos do meu cunhado e seus amigos. Resolvi ir mijar, deixando a mulher lá na mesa. Quando voltei, percebi que ela estava saindo da botillería (uma espécie de adega) com mais vinhos na mão e os entregou ao meu cunhado e seus amigos.
Fui falar com ele a fim de saber a hora que voltaríamos para casa. Ele, com os vinhos na mão, me disse: — Tranquilo, aún está temprano. Nisso, a mulher se aproximou e começou a ser mais direta em suas intenções, perguntando se eu era solteiro. Depois de um breve cálculo mental levando em consideração a presença do meu cunhado, respondi: — Tenho namorada, esse aqui ó,ele é o irmão dela. Foi quando percebi que ele estava rindo e fazendo um sinal de negativo com a cabeça; negou tudo, disse que eu não tinha nada com a irmã dele.
Com extrema vontade de rir da situação, mas sem palavras para reagir, puxei-o de canto e insisti para ele parar com aquela brincadeira. Os amigos dele riam, tomando o vinho patrocinado pela mulher que estava sedenta por mim. Enfim, depois de se divertirem com a situação e tomarem até a última gota de vinho oferecida pela coroa(me fazendo de moeda de troca ), os caras simplesmente disseram um "chau, hasta luego". Isso parece ter sido um dispositivo explosivo para essa senhora, que simplesmente começou a correr atrás da gente segurando o Tirolês nos braços e gritando: — ¡Mi amor, ¿dónde vas, mi amor?! ¡Vuelve, mi amor, no te vayas!
Isso durou uma quadra inteira. Voltamos para casa e um misto de felicidade e susto me invadia. Percebi ali que estava muito longe de casa, muito próximo das histórias que lia nos livros, sem saber onde tudo isso ia dar, mas vivendo tudo durante o caminho.
ah!Quantas lembranças, outro dia conto a historia de um carro chamado Chapolin.