Obras audiovisuais, com destaque para animes, filmes e músicas, ajudam a lidar com as sensações que percorrem meu corpo. As vejo como o sentido daquela frase: “uma imagem vale mais que mil palavras”; desse modo, posso articular uma linguagem multimodal capaz de direcionar esses fluxos, mesmo que pareça tudo muito confuso no início.
Para mim, essas obras proporcionam imagens que são arranjos de sensações e se relacionam com outros aspectos que estão para além da escrita. Há muito tempo, meus amigos e eu, quando queríamos entrar em alguma festa em que somente maiores de idade podiam entrar, fazíamos o truque da sobreposição de imagem com forma de texto.
Basicamente, escaneávamos a identidade e, como não podíamos trocar a letra digitando, tínhamos que fazer um recorte da imagem do número que queríamos e colá-lo no lugar do número indesejado. Ou seja, era uma imagem com o valor de texto; ela não foi digitada como as outras letras, tinham sido,mas sim inserida sobre um outro registro.
Nesse caso, isso parece ir contra aquela velha afirmação de que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas, se analisarmos mais a fundo, podemos ver que o texto só se faz autêntico nesse contexto porque, no geral, ele mesmo faz parte e forma uma imagem; era com a imagem, geralmente, que as pessoas que recebiam os documentos se relacionavam: com a imagem de um texto que lhe indicaria o que fazer em seguida.
Como o intuito era fazer com que aprovassem sem resistência nossa entrada, a forma teria que estar em uma frequência de intensidade equivalente ao documento original, a fim de parecer o mais orgânico possível. Obviamente, por motivos de expansão de consciência, além de puro medo das consequências, nunca fiz isso para outra coisa senão para entrar nesses distintos estabelecimentos do rock nas noites paulistanas.
Mas, ainda assim, posso dizer que conservo essa prática na hora de me expressar, usando imagens inseridas ao texto; porém, dessa vez, meu intuito não é camuflar um sentido, mas sim agenciar os sentidos dessas obras com meus arranjos de sentidos, evidenciando sensações de forma satisfatória para meu corpo, emoções, intelecto e desejos.
Inicialmente, destaquei os animes porque, de todas as mídias que acompanho é a que vejo com mais frequência, utilizar o aspecto do figural para transmitir em uma forma, um fluxo de desejo. Por exemplo: podemos ver em diversas obras as técnicas de cada personagem serem representadas através de postura, palavra ou forma, todas revelando alguma doutrina. Quando o Shiryu usa o Cólera do Dragão, a imagem do dragão imagetifica a intensidade do golpe, a fim de termos uma noção da magnitude e dos tropos que seu golpe cobre.
Também temos o exemplo dos Hatsus de Hunter x Hunter, que são expressões autênticas e conscientes da energia vital, doutrinas inteiras e até mesmo técnicas hereditárias, como o Reikohadoken em Yu Yu Hakusho e as Kekkei Genkai em Naruto. Todas são representadas por imagens que nada mais são do que arranjos de sensações.
No final das contas, ao que parece, todos nós — personagens, autores e leitores — buscamos o mesmo: uma forma de nossos corpos, sensações, intelecto e desejos se expressarem até que se sintam satisfeitos e prontos para se relacionar com as expressões de vida de cada um dos seres existentes. Para mim, todas as minhas criações são como flores Frankenstein que florescem entre o todo e o nada, e eu precisava de um lugar onde pudesse cultivá-las. Por isso criei este site, pois no processo a que me propus, que é o de explorar ao máximo os quatro aspectos do ser humano, acredito que é fundamental, para todos eles, expressar-se livremente.