Qual foi seu primeiro porre?
O meu foi aos 15 anos, em 2005. Pensando em uma melhor qualidade de ensino, meus pais, depois de muito esforço, conseguiram uma vaga no período noturno em uma escola modelo de SP.
Isso foi como abrir a Caixa de Pandora para mim. Nas escolas do bairro, se você tivesse um gosto musical voltado ao rock, existiam condições que precisava enfrentar caso quisesse expressá-lo em público. Alguns reproduziam um antigo mito urbano do Centro: na Galeria do Rock, caso você estivesse passando com uma camiseta de banda, alguns roqueiros te paravam e te interrogavam a respeito da estampa. Se soubesse responder, estava liberado para ostentar sua banda favorita; caso seu conhecimento fosse julgado insuficiente, sua camiseta era confiscada ali mesmo após você levar uns tapas e "butinadas". Dizem as más línguas que até um martelo foi lançado sobre a cabeça de um indivíduo. Claro que, na versão de bairro, as penas podiam ser bem mais pesadas.
Outra condição era estar totalmente desligado de todos os adjetivos que você poderia receber por suas roupas, cabelo e traços de discurso, já que a maioria dos jovens ali estava mais habituados a outros estilos musicais que representavam, por sua vez, outras visões de mundo.
Quando cheguei na escola modelo, a primeira coisa que reparei foi a multiplicidade de estilos vindos de todas as partes da cidade. estudávamos de noite e como não é era necessário usar uniforme, a criatividade na forma de se vestir florescia.
Não demorou muito para eu começar a me envolver com pessoas que fumavam Black e tomavam vinho na praça. E foi aí que conheci o vinho — ah, o vinho que, na verdade, nem era vinho.
Depois de traçar planos para conseguirmos comprar bebidas, já que éramos menores de idade, o que nos alcançava quase sempre eram uma ou duas garrafas de Cantina do Vale. Nossa amiga mais abastada comprava umas garrafinhas de Smirnoff. Antes mesmo de ser conhecido por todos hoje como "Cantinho do Vale", nosso querido elixir da noite era um coquetel de frutas com álcool, doce para caramba, que deixava a boca toda vermelha e garantia o desequilíbrio da noite. Mais tarde, outras versões radioativas emulando o "sagrado sangue da noite" surgiram; entre elas, uma um pouco mais estável permaneceu e, com nome semelhante, tornou-se a sucessora do elixir.
Nessa altura, eu já andava com as calças jeans rasgadas no joelho, fazia promessas de tatuagens e tinha conquistado o direito de usar umas camisetas do Guns N' Roses por aí. Decidi que estava na hora de um passo maior na rebeldia: era o momento de me embebedar de Cantina do Vale. E foi o que fiz. Foi a primeira vez que senti o tal do "piloto automático". Sujei toda a minha calça de vinho, que chegou a escorrer pelas minhas pernas através dos buracos do jeans.
Consegui pegar o último ônibus para casa. Para complicar, não levei a chave e tive que bater na porta completamente bêbado. Minha mãe atendeu em um estado entre a vigília e o onírico. Eu disse que contaria toda a história quando acordasse. Meu pai era bombeiro e trabalhava em regime de escala (um dia sim, outro não); para minha sorte, naquela noite ele estava trabalhando.
No dia seguinte, inventei a história mais deslavada que já ouvi. Disse para minha mãe que houve uma briga no ponto de ônibus e que fui tentar separar. O bêbado que estava brigando derrubou uma garrafa inteira de vinho em mim e nos perseguiu. Depois de muito tempo, conseguimos despistar o brigão e embarcamos no ônibus. Como ela podia ver, eu era um verdadeiro sobrevivente da noite!
Inacreditavelmente, ela não disse nada. Nem meu pai, nem ninguém. Essa história foi simplesmente abafada após aquela manhã. Claro que fiquei um tempo chegando no horário previsto, com calças sem furos e nada de boca vermelha de vinho.
Até o ano seguinte, quando aí sim, conheci o vinho, a noite, a arte e o amor.